Como encontrei uma obra de arte valiosa num leilão por R$ 250

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Uma história real sobre olhar atento, curiosidade e o mercado de arte que poucos conhecem


Há uma cena que se repete com frequência no universo dos leilões: uma obra passa despercebida, vai a leilão por um valor irrisório, e quem a arremata descobre, mais tarde, que tinha nas mãos algo muito mais valioso do que imaginava. Sempre fui meio sonhador, daquelas pessoas que andam ruas afora pensando: “ah, seu achasse um diamante caído no chão”

Vez ou outra o universo escuta nossas súplicas, não necessariamente com os pedidos entregues de forma literal, sabedor de nossas aspirações ele trata de criar um enredo poético e nos coloca para vivenciar nossas ilusões. Comigo, morador de Vitória, no Espírito Santo, essa cena aconteceu de verdade — e o protagonista foi ninguém menos que Dionísio Del Santo, um dos maiores nomes do concretismo brasileiro.

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Nosso artigo de hoje é um relato pessoal, uma situação vivenciada, e que resolvi compartilhar com vocês que me acompanham por aqui. Não poderia priva-los desse relato, ao narrar aqui, nas próximas linhas uma situação real, espero despertar em todos a atenção, o interesse, o espirito de pesquisa sobre peças valiosas que podemos ter em casa ou próximo a nós e muitas vezes perdemos oportunidades por pura desatenção ou menosprezo a historia e pesquisa. Espero que gostem…


O Encontro Casual que Não Foi Tão Casual Assim

Sempre tive interesse pelo mercado de artes e antiguidades. Não é um interesse superficial, daqueles que surgem depois de um episódio de reality show de decoração. É a curiosidade genuína de quem circula por esse universo há anos, conhece seus meandros, entende que uma peça fora do lugar pode ser um tesouro à espera de alguém com olhos treinados.

Desde novo, novo mesmo, quando a idade girava na casa dos 20 e poucos… eu gostava de casa, coisas de casa, enfeites de casa, peças de decoração, casa arrumada, cheirosa, e; quando tive certa autonomia financeira, comecei a comprar “coisas de casa” porcelanas, cristais e quadros, muitos quadros. Visitar sites de decoração e pesquisar temas relacionados a decoração e artes, só perdia para visitar lojas de decoração, museus, e galerias de arte.

Em pouco tempo, comecei a pesquisar também os sites de leilões, sabem como é neh… os algoritmos começam a perceber nossa movimentação virtual em torno de determinado interesse, e, sabiamente, ou sei lá qual nome poderíamos dar, começam a nos mandar “páginas que seriam de nosso interesse”…

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Foi navegando pela internet, em uma dessas buscas habituais por leilões e peças interessantes, que cheguei ao site da Capadócia Leilões, uma casa sediada no Rio de Janeiro. Entre os lotes disponíveis para o leilão de junho de 2026, uma imagem chamou minha atenção: uma composição geométrica em papel, com seis painéis coloridos em azul, amarelo, vermelho e verde, estruturados em formas retangulares que se encaixavam com precisão matemática. No canto inferior direito, uma assinatura e uma data: D. Del Santo, 1975.

O lance inicial era de R$ 250.


Quem Foi Dionísio Del Santo

Para quem não conhece o nome — e boa parte dos participantes daquele leilão claramente não conhecia —, Dionísio Del Santo é uma figura central na história da arte brasileira do século XX.

Nascido em 1925 em Colatina, no Espírito Santo, Del Santo foi pintor, desenhista, gravador e serígrafo. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1946, onde começou a estudar pintura, frequentou aulas de teoria das cores e se aprofundou em técnicas gráficas. Com o tempo, tornou-se um dos artistas mais consistentes da tradição concretista brasileira — aquela corrente que, inspirada por nomes como Josef Albers, Max Bill e Victor Vasarely, transformava geometria e cor em pura investigação visual.

Sua técnica mais reconhecida foi a permutação: um processo no qual o artista mantinha a mesma composição geométrica e variava sistematicamente o espectro de cores de uma tiragem para outra. Podia chegar a produzir setenta, oitenta, cem versões distintas da mesma estrutura, cada uma com uma paleta diferente, cada uma funcionando como uma obra autônoma. Era uma pesquisa rigorosa sobre como a cor transforma a percepção da forma — e ao mesmo tempo uma demonstração extraordinária de domínio técnico.

Del Santo recebeu o prêmio de aquisição na 9ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1967. Em 1975 — o mesmo ano da obra que encontrei — foi premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte como Melhor Exposição de Gravura do Ano. Suas obras integram o acervo do MAM do Rio de Janeiro, do Museu de Arte Moderna de São Paulo e de coleções particulares no Brasil e no exterior. O Museu de Arte do Espírito Santo, inaugurado em 1998 com uma grande retrospectiva de seu trabalho, passou a levar oficialmente o seu nome. Dionísio Del Santo faleceu em 1999, em Vitória — a mesma cidade onde moro.


A Obra: Uma Permuta de 1975

A peça que apareceu no leilão é um exemplo perfeito do que Del Santo produziu em seu período mais celebrado. Datada de 1975, no auge da série de Permutas, a obra apresenta seis variações da mesma composição geométrica reunidas em uma única folha de papel de 28×40 centímetros. Em cada painel, a mesma estrutura de retângulos encaixados — aquela forma em degrau que se tornou uma espécie de assinatura visual do artista — ganha uma combinação diferente de cores primárias e secundárias.

É uma obra que resume em si mesma o projeto inteiro das Permutas: mostrar como a cor não apenas preenche a forma, mas a transforma. Olhando para os seis painéis lado a lado, percebe-se que a composição parece diferente em cada um, ainda que a estrutura seja matematicamente idêntica. É geometria se comportando como poesia.

A assinatura no canto inferior direito, manuscrita com caneta preta sobre o papel, é discreta e segura — o tipo de assinatura de quem não precisava chamar atenção para si mesmo, porque a obra já falava.


O Leilão e o Lance de R$ 250

Sempre achei o mercado de leilões algo muito sofisticado, “coisa de gente rica, riquíssima, eu pensava” logo, distante de mim. Ocorre que vez ou outra devemos dar um “susto na pobreza” que reside em nós, e muitas vezes nos impede até de pensar em prosperar, medos do desconhecido, momentos que podem deixar de existir em nossas vidas, mais por preconceito nosso mesmo, associado a uma dose de ignorância genuína que também insistimos em cultivar. Pois bem olhei daqui, pesquisei dali, e fiz o cadastro online em uma casa de leilão.

A partir dai, veio o cadastro na segunda casa, na terceira casa, e foi se indo, desde então as horas de internet se resumia a pesquisar peças de arte em leilão. Muitas obras caras e valiosas com lances iniciais altíssimos, outras peças com preços mais razoáveis, e sempre via também obras de artistas reconhecidos com preços interessantes, bem interessantes. Foi aí que resolvi arriscar.

No dia 2 de junho de 2026, a obra foi a leilão na Capadócia Leilões com apenas um lance registrado. Arremate: R$ 250.

É um valor que, no contexto do mercado de arte brasileiro, beira o incompreensível. Galerias especializadas em São Paulo comercializam serigrafias de Del Santo de dimensões similares por valores entre R$ 1.500 e R$ 8.000, dependendo do período, da tiragem e do estado de conservação. Uma Permuta 1/1 de 1984, por exemplo, está sendo oferecida atualmente por R$ 6.780 em uma galeria paulistana.

A obra que adquiri, datada de 1975 — período considerado ainda mais relevante na trajetória do artista —, tem valor estimado de mercado entre R$ 1.500 e R$ 3.000 em galeria, e entre R$ 800 e R$ 1.500 em revenda direta.

O retorno potencial sobre o investimento inicial é de seis a doze vezes o valor pago.

Mas não penso em vender. Pelo menos não agora.


O que Faz uma Obra Ser Subvalorizada em Leilão

Minha história não é uma anomalia. É, na verdade, um fenômeno bem documentado no mercado de arte: obras de artistas de importância regional ou de nichos especializados frequentemente passam por leilões generalistas sem que os participantes reconheçam seu valor.

No caso de Dionísio Del Santo, existe um paradoxo curioso. O artista é unanimemente reconhecido entre críticos, curadores e colecionadores especializados em arte concreta brasileira. Seu nome aparece em enciclopédias de referência, em coleções de museus importantes, em catálogos de grandes exposições. Mas fora desse círculo, o reconhecimento ainda é limitado. Num leilão online de abrangência nacional, onde os participantes têm interesses os mais variados, a assinatura “D. Del Santo 1975” pode passar despercebida para a grande maioria.

É exatamente esse gap — entre o valor real e o reconhecimento popular — que cria oportunidades para quem tem conhecimento. E conhecimento, no mercado de arte, vale tanto quanto capital.


O que Faço Agora com a Obra

A peça está emoldurada e ocupa um lugar de destaque na minha casa em Vitória. Há uma ironia geográfica bonita nisso: Del Santo nasceu no interior do Espírito Santo, trabalhou décadas no Rio de Janeiro, e terminou seus dias em Vitória. A obra que ele assinou em 1975 percorreu um caminho longo — passando por coleções, por um leilão no Rio de Janeiro — até chegar às mãos de alguém que mora na mesma cidade onde o artista viveu seus últimos anos.

Guardo o comprovante do leilão com cuidado. No mercado de arte, proveniência documentada — o histórico de onde e quando uma obra foi adquirida — é parte do valor da peça. Cada registro que comprova a cadeia de custódia contribui para a autenticidade e, consequentemente, para o preço em uma eventual venda futura.

Por ora, o plano é conservar bem e deixar o tempo trabalhar. O mercado de arte concreta brasileira está em movimento crescente de valorização, e Del Santo especificamente tem recebido atenção renovada de curadores e pesquisadores. Quem tem paciência, no mercado de arte, costuma ser recompensado.


A Lição que Fica

Essa história não é sobre sorte. É sobre atenção. É sobre o hábito de buscar, de pesquisar, de conhecer o suficiente para reconhecer valor onde outros enxergam apenas uma imagem colorida sem nome familiar. meu relato pretende mostrar que é possível sim, viver e ter coisas que muitas vezes julgamos distantes de nós, as vezes, como já mencionei acima, mais por ignorância e teimosia do que propriamente por barreiras reais.

O mercado de leilões online — que democratizou o acesso a peças antes restritas a galerias e casas de leilão físicas — está cheio de histórias assim esperando para acontecer. Obras de artistas importantes que passam despercebidas porque o nome não é imediatamente reconhecível. Peças de períodos cruciais que chegam sem a fanfarra que mereceriam. Tesouros à espera de quem saiba o que está vendo.

A busca continua. O próximo achado pode estar a uma pesquisa de distância. Não se prive de sonhar, desejar, visualizar, e, pesquisar, sonhar, pensar e acreditar, muitas vezes nossos sonhos estão mais próximos de nós que podemos supor.


Você também tem interesse em arte e antiguidades? Já encontrou algum tesouro escondido? Conta nos comentários abaixo.

Sobre o Autor

Marcio Henrique

Marcio Henrique

Sou redator, amo escrever sobre diversos tipos de conteúdo no decorrer do ano, entusiasta e apaixonado pela decoração vintage e em peças de segunda mão, apaixonado por dar novos significados a objetos e ambientes. Admirador de Artes e Design de Interiores, utilizo dessa paixão para criar conteúdos que valorizam a história e a estética única do design retrô. Vejo na escrita de conteúdos em qualquer área ou nicho ou forma de me comunicar e conectar as todas as pessoas.

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